Parte 5


TEODÓSIO, POLYCARPO, HERMENEGILDO E ELVIRA

Certo dia, na casa de Elvira, ouviu-se um estrondo no andar de cima. Elvira logo exclamou: "Meu cofre!...". Com o coraçãozinho batendo fortemente subiu correndo as escadas e viu seu cofrinho de barro caído no chão, quebrado, moedinhas espalhadas. Teodósio fizera isso! Houve muito choro e lamentação, mas após repreender rigorosamente Teodósio, os pais improvisaram um novo cofre para Elvira.

Em outra ocasião, Teodósio chegou em casa radiante, trazendo uma tarrafa de pescador. O pai indagou onde havia encontrado aquilo e ele respondeu: "No rio!"  O pai, então, lhe disse: "Venha comigo. Você vai colocar isso no lugar onde encontrou, porque alguém deve ter deixado lá e virá buscar depois". Durante o trajeto, o repreendeu severamente, o que lhe serviria de lição dali por diante.

Teodósio não quis aprender o ofício do pai. Queria viajar, conhecer o mundo. Para tanto, contra a vontade de seus pais, começou a mascatear nas fazendas e regiões vizinhas. Para atingir seu objetivo, realizava qualquer trabalho. Assim, foi garçom, ajudante de navio, ajudante de enfermagem etc. Este último emprego lhe foi bastante útil em seus últimos anos de vida, como veremos mais adiante. Os pais tentavam demovê-lo dessa idéia, sempre em vão. Antonio chegou a ir ao consulado pedir para que lhe negassem o passaporte, porém, isso não foi possível, já que não havia motivo justo para tanto.

Teodósio era muito inconstante, um boêmio. Da mesma forma que desaparecia sem que ninguém soubesse de seu paradeiro, inesperadamente retornava. Numa certa véspera de Natal, todos estavam reunidos à mesa para a distribuição das guloseimas preparadas por Antonina, que chamava cada filho pelo nome para receber o presente. De repente, alguém grita: "Esta parte é do Teodósio!". Saltando pela janela, Teodósio, então, juntou-se à família. Foi grande a alegria por seu regresso e, entre beijos e abraços, Teodósio contava suas façanhas pelo mundo.

Teodósio possuía bela aparência, boas maneiras e facilmente conquistava amizades. Assim, aprontava muitas peripécias. Certa vez o pai precisou ir ao consulado para retirar uma carta proveniente da França, enviada por uma senhora proprietária de uma rica pensão onde Teodósio se hospedara, apresentado por um distinto amigo. Lá ficou por aproximadamente um mês, onde foi tratado como um filho, permanecendo entre os pensionistas de primeira classe. Ao se despedir, deixou o endereço de seus pais, dizendo que os mesmos eram riquíssimos e possuíam muitas propriedades. Por isso, com muita delicadeza, a senhora apresentava na carta a fabulosa conta que o pai deveria pagar, conforme a recomendação de Teodósio. Antonio, então, enviou-lhe outra correspondência, dizendo que infelizmente ela deveria ter se informado antes sobre a condição financeira de seu hóspede.

Em determinada ocasião, a família foi à capital para assistir às solenidades festivas em comemoração ao centenário de Santo Anselmo, padroeiro de Mantova, cujo corpo estava depositado em uma urna de vidro, exposta para veneração dos fiéis. Outra solenidade também comemorada com muitos festejos ocorria em 8 de setembro, data dedicada à padroeira da vila, Natividade de Nossa senhora. O ponto alto dessas festas era a banda de música, muito admirada por Polycarpo, que era um menino bastante estudioso, primeiro da classe na escola e, em casa, grande colaborador do pai no trabalho.

Sentindo que tinha vocação para a música, ainda criança ingressou na banda para tocar clarineta. Polycarpo trajava um garboso uniforme e, por sua pouca idade, graça e beleza, era o mascote da banda.

Em todas as vilas das imediações também se comemorava as festas de seus padroeiros. Um hábito, na ocasião, era a hospedagem dos músicos pelas famílias locais, que disputavam a alegria de hospedar o gracioso mascote Polycarpo, alvo da atenção de todos.
HERMENEGILDO, o caçulinha, muito doentinho quando criança, começou a andar apenas aos cinco anos de idade. Quando ingressou na escola, lhe perguntaram: "Gildo, você já aprendeu onde é a porta de entrada da escola?". E ele respondeu, sem demora: "Sim, já aprendi onde é a porta da entrada e também a da saída!". Era uma criança ativa e até o fim de sua vida Hermenegildo sempre foi muito espirituoso.

Elvira aprendia na escola, além das matérias habituais, trabalhos manuais como tricô e costura, inclusive de camisas masculinas, pois na época não havia máquina de costura. Em certa ocasião, a professora de Elvira comprou na capital uma máquina de costura que foi objeto de curiosidade geral e admiração por parte de todos.
Elvira também era catequista na igreja, onde ocupava um lugar reservado ao lado do altar durante a missa. Um dia, estando no seu posto, sua atenção voltou-se para uma senhora que orava fervorosamente, ajoelhada. De sua cabeça pendia um véu negro e rendado. Elvira se perguntava quem poderia ser aquela senhora que tanto lhe chamou a atenção. De repente, a senhora voltou-se para ela, e qual não foi sua surpresa ao reconhecê-la: era sua própria mãe! Acostumada a vê-la na lida doméstica, nunca havia notado o quanto era bonita.

Um costume entre os jovens, na época, era pescar no rio à tardinha, com seus chapéus de palha e todos apetrechos necessários. Lá passavam horas, reunidos alegremente. Elvira tinha três amigas íntimas que sempre a acompanhavam, Éden, Zoraide e Adalgisa, das quais sempre se recordava com muita saudade.

No inverno, outro ponto de encontro dos jovens era o estábulo, cuidadosamente limpo e desinfetado três vezes ao dia, com animais rigorosamente tratados. Lampiões e lanternas a querosene iluminavam o recinto, onde grupos de rapazes cantavam, acompanhados de violões e sanfonas. As jovens, acompanhadas por suas mães, chegavam trazendo cestinhos com seus trabalhos manuais: bordados, costuras e, principalmente, tricô. Ao som da música, pares rodopiavam e as crianças saltitavam alegremente. Naturalmente o cupido também andava por ali atirando suas flechas! Assim como outras jovens, Elvira também tinha seu pretendente, aquele que conquistou seu coração, seu primeiro amor. Ambos se amavam muito e sonhavam com um belo futuro. Mal sabiam que esse sonho era passageiro e, em breve, seria desfeito para sempre.

Parte 6


A DOR DA PARTIDA

No lar dos Meneghelli reinavam a paz, compreensão, alegria e bem-estar. Mas, repentinamente, nuvens escuras pairaram nesse céu de tanta felicidade. Alguma coisa preocupava Antonio, que se tornou calado, pensativo e com o olhar distante. Em vão a esposa e filhos indagavam o motivo de tanta mudança em seu comportamento. Finalmente, um dia, Antonio comunicou-lhes que queria mudar-se para o Brasil. Mãe e filhos, entre lágrimas e súplicas, tentaram demovê-lo dessa idéia que, para Antonio, transformou-se em obsessão.

Antonio foi à prefeitura, seu local de trabalho, para expor suas idéias. Seus superiores não acreditaram e disseram: "Estai scherzarendo o sei pazzo?..." (Estás brincando ou é louco?). Antonio respondeu que apenas queria ir ao Brasil. Perguntaram-lhe, então, se queria um aumento de salário, argumentando que mais tarde, na velhice, seria útil ter uma boa aposentadoria. Tentaram argumentar, ainda, dizendo que no Brasil havia necessidade de trabalhadores rurais e que ele nunca tido trabalhado com isso. 


Certamente, diziam eles, iria se decepcionar assim como já havia acontecido com tantos outros. Porém, nada fez com que Antonio mudasse de ideia.

Antonio dizia à esposa que temia pelo início de uma guerra e não queria que seus filhos homens fossem obrigados a participar dela. Permanecendo na Itália, seria impossível evitar que isso acontecesse. Além do mais, conhecidos seus já estavam vivendo bem no Brasil há anos.


Os pais e irmãos de Antonio já haviam partido para o Brasil, fixando residência em Colatina, no Estado do Espírito Santo. Passados alguns anos, José Meneghelli, o pai de Antonio, para proteger-se de um temporal no campo, refugiou-se sob uma árvore que acabou tombando e o matou.

Firme em seu propósito, Antonio começou a tomar as providências necessárias para a viagem: tirou os passaportes, comprou passagens de segunda classe no navio, enfim, deixou tudo em ordem para a partida.

Começaram, então, a se despedir de parentes e amigos, do vigário da igrejinha e de todas as recordações de sua terra natal. Em cada canto, uma saudade...

Polycarpo despediu-se de seu professor, que lamentou muito por sua partida, já que era um ótimo aluno e muito querido. Disse-lhe: "Leio sempre os jornais e estou informado de que no Brasil há falta de professores. Você é inteligente e, apesar da pouca idade, poderá ensinar. Separei alguns livros que poderão ajudá-lo muito. Este é meu presente para você".

Teodósio, por sua vez, resolveu permanecer na Itália e foi despedir-se de seus familiares. "Algum dia irei visitá-los", afirmou.

Em prantos e com a alma dilacerada, lançaram o último olhar, despedindo-se de sua casa e de tudo que ficaria para trás, transformando-se em recordações. Só restaria a saudade. Deixar sua pátria tão querida, partir para um país desconhecido, entre um povo estranho, com língua e costumes diferentes, era doloroso demais. Só Deus poderia lhes dar forças nesse momento. Levaram, assim, a dor da separação e o temor do destino que estava traçado.

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"Partire è un po’ morire", dice l’adagio, "Ma è meglio partire che morire", aggiunge Carrara.

Appena fatta l’Italia, gli italiani erano troppi, troppo poveri e ancor più malcontenti.
Anche per questo i governi europei spinsero su quello brasiliano per ottenere, nel 1888, l’abolizione della schiavitù.

La conseguente domanda di mano d’opera venne soddisfatta dai Paesi del vecchio continente,ben felici di liberarsi di una massa di miserabili che rischiava di diventare troppo turbolenta."

(Lino Zonin, sobre a peça Merica, Merica, Merica, de Armando Carrara, em Il Giornale Di Vicenza, 14 agosto 2001).

 Tradução:

"Partir é morrer um pouco", diz o adágio, "Mas é melhor partir do que morrer", retruca Carrara.

Tão logo unificada a Itália, os italianos eram muitos, muito pobres, e estavam extremamente descontentes.

Talvez por essa razão os governos europeus fizeram pressão sobre o governo brasileiro para que em 1888 fosse abolida a escravidão.

A demanda de mão- de- obra criada com a libertação dos escravos pôde ser satisfeita com a emigração de trabalhadores de países do velho continente, que certamente ficaram muito felizes por livrarem-se de uma massa de miseráveis que poderia provocar sérios tumultos."

Parte 7


A VIAGEM

A família de Antonio Meneghelli embarcou em 1.886 num navio, cujo nome não meu recordo, para uma viagem que deveria durar aproximadamente um mês.

Ao passarem pela alfândega, dois guardas revistaram a bagagem e abriram uma canastra onde Antonina colocara um lindo quadro da Madona Adolorata (Nossa Senhora das Dores). Os guardas contemplaram a imagem por alguns instantes e fecharam respeitosamente a canastra, sem tocar em mais nada. Esse quadro sempre esteve na cabeceira da cama de meus avós e ali permaneceu até os últimos dias de suas vidas.

Apesar da angústia, foram dias de muita felicidade, pois a alegria no navio era contagiante. Foram muito bem acolhidos e, embora ocupassem a segunda classe, tiveram tratamento semelhante aos mais privilegiados, com todas as regalias. Rapidamente conquistaram a simpatia de todos.

Polycarpo e HERMENEGILDO travavam amizade com os marinheiros e excursionavam pelo navio. Elvira juntou-se a outras jovens e também divertia-se muito. Antonio jogava cartas com seus companheiros e Antonina fora escalada para abrir massa de espaguete na cozinha, tarefa que fazia com grande prazer, pois era muito habilidosa.

Um elegante genovês, sobrinho do comandante do navio, se apaixonou por Elvira logo que a viu. Assim, propôs a ela e a seus pais que, caso estivessem de acordo, quando o navio retornasse à Itália, Elvira regressaria com ele e ficaria interna num colégio de Gênova, até que ele concluísse seus estudos na Marinha, dentro de dois anos, quando se casaria com ela. No entanto, nem Elvira, nem sua família concordaram com a separação.

O padeiro do navio também se apaixonou por Elvira. Logo ao amanhecer levava deliciosos pãezinhos à mesa da família e não perdia a oportunidade de declarar seu amor por ela. Embora jamais tivesse sido correspondido, ele não perdia a esperança de conquistá-la.

O navio atracou na Ilha das Flores, no Rio de Janeiro, e os viajantes ficaram surpresos ao ver os africanos de pele negra, pois foi a primeira vez que tiveram contato com essa raça. Nem imaginavam que pudesse haver raças tão diferentes no mundo. Os negros ofereciam suas mercadorias, principalmente abacaxis e jacas, que os viajantes acreditavam tratar-se de gigantescos figos da Índia.

Os dias foram passando e as jovens e suas mães tricotavam e bordavam. Havia um casal que viajava com duas meninas vestidas com tanto tricô feito no navio que até pareciam duas bolas andantes!

No final da viagem, ao retomar suas bagagens, Polycarpo notou com tristeza que o caixote com os livros que ganhou do professor havia sumido.

Ao despedir-se, o padeiro insistiu no seu pedido à Elvira, declarando que, caso ela o aceitasse, ele deixaria o emprego. Ela, no entanto, respondeu-lhe francamente que não deveria perder o emprego por sua causa, pois ela não o amava e, portanto, não poderia corresponder-lhe.


CHEGADA AO BRASIL
Hospedaria dos Imigrantes

A família desembarcou no Porto de Santos e, por ordem do consulado italiano, foram de trem até São Paulo, onde se instalaram na Hospedaria dos Imigrantes à espera de seguir seu destino. Na ocasião lhes foi devolvido o dinheiro das passagens, sem que entendessem o porquê. Na verdade, por terem sido incluídos como imigrantes, receberam esse benefício.

Passados alguns dias, o padeiro apaixonado foi visitá-los, afirmando que, por causa de Elvira, desistira do emprego e seu navio já partira. Dizia que não se conformava por ela não lhe corresponder e lastimava, finalmente, por estar sem ela e sem o emprego. A linda jovem, então, lhe respondeu: "Nunca alimentei suas esperanças. Ao contrário, o aconselhei a não deixar o emprego. Você fez isso porque quis". Sabendo que a família seguiria em direção à cidade de São Carlos, o padeiro ainda insistiu, dizendo que a escreveria e que, caso mudasse de idéia, imediatamente iria vê-la.

Parte 8


DESTINO: SÃO CARLOS - SP

O Consulado Italiano determinava os destinos dos imigrantes que chegavam ao Brasil. Assim, a família de Antonio Meneghelli seguiu de trem até a cidade de São Carlos - SP, onde também permaneceram numa hospedaria para imigrantes. Alguns dias se passaram até que dois empregados de uma fazenda vieram buscá-los com um carro de boi. Soluçando, obedeceram aos empregados e partiram, juntamente com outras famílias.

Depois de atravessarem a cidade, embrenharam-se no mato. Às vezes, para caçoar dos imigrantes, os empregados paravam o carro e gritavam: "Pinga! Maria Pinga!...". Os passageiros, que nada entendiam, julgavam que fosse uma ordem para descer do carro. Logo que desciam, os empregados gargalhavam e vagavam para lá e para cá, assobiando e rindo dos italianos.

Ao entardecer, chegaram à fazenda, de cujo proprietário não me recordo o nome. Depois de se lavarem no rio, foram levados à casa do fazendeiro e entraram na sala de jantar, onde havia uma grande mesa. O fazendeiro ocupava a cabeceira da mesa, ladeado por seus familiares. Depois de apresentados, ocuparam seus lugares. Ficaram admirados com a fartura de queijo ralado que estava à disposição. Na realidade, porém, tratava-se  de farinha de mandioca, alimento que eles não conheciam.

Antonina não conseguia conter suas lágrimas e chorava copiosamente. O fazendeiro, compadecido, indagou porque ela não comia e chorava tanto. Perguntou se algum filho dela havia morrido. A pobrezinha, soluçando, respondeu-lhe em seu dialeto. Percebendo que não se entenderiam, o fazendeiro mandou chamar um rapaz que aparentava aproximadamente 25 anos. Era alto, forte, de cabelos claros e olhos castanhos um tanto tristonhos. Seu nome era Emanuel.

O fazendeiro ordenou a Emanuel: "Mandei te chamar porque me parece que essa família de patrícios seus não está gostando daqui. As mulheres choram muito e não nos entendemos. Por favor, diga-lhes que, se não quiserem ficar, pagarei a viagem de retorno a São Paulo. Lá se entenderão com o Consulado Italiano". Emanuel prontamente respondeu: "Si, si, vá bene signore!". Mas ao deparar com aquela linda jovem de olhos marejados, seu coração pulsou fortemente. Apaixonou-se à primeira vista por Elvira e imediatamente teve uma idéia. Mudou tudo o que o fazendeiro pedira para dizer-lhes e os aconselhou a terem mais paciência, pois era natural que estranhassem a nova vida. Logo acabariam se habituando e até gostando do lugar. O dialeto que falavam era muito diferente, mas como Emanuel dominava a língua toscana ensinada nas escolas, todos acabaram por se entender.



DIFÍCIL ADAPTAÇÃO

Foi extremamente doloroso para a família ver sua nova moradia, feita de pau a pique, com chão batido e telhado de sapé. Não imaginavam que existissem casas assim, tão precárias. Muitas lágrimas foram derramadas até que se conformassem com a nova situação.

Todas as tardes, após o jantar, Emanuel os visitava, consolando-os com sua presença e sua conversa. Aproveitava também para lhes ensinar a língua portuguesa. Emanuel cuidava da horta e do pomar da fazenda. Logo ao amanhecer colhia as melhores frutas  e hortaliças e as despejava pela janela da amada.

Apesar de toda a dedicação de Emanuel, seu amor por Elvira não era correspondido. Ela ainda não havia esquecido do grande amor que ficara na pátria tão distante e do qual, agora, só restavam saudades.

Em certa ocasião, Elvira estava na companhia do irmão lavando roupas no rio. Por serem muito claros, com pele delicada e faces rosadas, usavam chapéus de palha como proteção por causa do sol forte. Na época, Elvira estava com 16 anos e seu irmão Polycarpo com 14. Nesse momento chegou um dos empregados, com ordem para que os acompanhassem até a presença do fazendeiro. Eles manifestaram o desejo de ir até sua casa para trocar as roupas e deixar os chapéus, por acreditavam não estarem apresentáveis para ir até a casa grande. O empregado, porém, não permitiu, dizendo que a ordem era para irem imediatamente.

Ao chegarem na sala onde os aguardavam parentes e amigos do fazendeiro, os pobrezinhos sentiram-se muito envergonhados. O fazendeiro lhes disse que queria que dançassem e cantassem para todos, pois um dos presentes afirmava tê-los visto cantar e dançar ao som de um violino em São Paulo. Os irmãos, confusos, disseram que possivelmente tratava-se de um engano, pois jamais dançaram e cantaram em público.

Aproveitando-se da oportunidade, o fazendeiro propôs à Elvira que se casasse com um de seus sobrinhos ali presente, que também encantou-se por ela. O sobrinho reiterou seu pedido, dizendo que possuía bens suficientes para enriquecê-la e também a toda sua família. Elvira, porém, não aceitou.

Parte 9


EMANUEL MICELI, O PRETENDENTE DE ELVIRA

Um dia Emanuel contou sua história para a família de Antonio Meneghelli. Havia aproximadamente dois anos que ele imigrara ao Brasil. Era o segundo filho do casal Antonio e Rosa Nanci Miceli. Seus irmãos chamavam-se Rafael, Domingos, Francisco, Tomáz, José e Maria Angélica. Seu pai era comerciante e residia em Pianopoli, província de Catanzaro, na Calábria. Todos seus irmãos tinham um ofício e ele sempre cuidou da horta e do pomar.

Todas as tardes, na Itália, ele e os irmãos saíam após o jantar para conversar com amigos. Porém, quando o pai, bastante rigoroso, ía à janela e dava um assobio, sabiam que era hora de entrar e assim sempre faziam.

Numa determinada noite, porém, Emanuel não acatou a ordem do pai e continuou na esquina próxima, conversando com amigos. Ao regressar, seu pai estava irritado e o repreendeu energicamente. Emanuel, pela primeira vez, retrucou dizendo que não era mais criança e que já completara 23 anos.


Discutiram até tarde da noite e não se entenderam. No dia seguinte, Emanuel logo tratou de arrumar seus documentos e viajou para o Brasil, sem reconciliar-se com o pai. Apesar disso, escrevia frequentemente para a mãe e irmãos.

Percebendo que por mais que fizesse não conseguia conquistar o amor de Elvira, inconformado, Emanuel apelou para a tragédia. Um dia subiu no telhado de sua casa e com um revólver em punho ameaçou suicidar-se, caso ela não o correspondesse.Houve susto, gritos e correria. Finalmente conseguiram acalmá-lo.

Os pais temiam pelo futuro de sua querida filha, num ambiente que consideravam cheio de perigos. E como Emanuel a amava verdadeiramente e era um grande amigo da família, aconselharam Elvira a aceitar o pedido de casamento. Filha obediente e já simpatizando mais com Emanuel, Elvira o aceitou e finalmente ficaram noivos.
Nessa época, Antonio já era encarregado de todo o serviço de carpintaria da fazenda e contava com a ajuda dos filhos Polycarpo e Hermenegildo para dar conta do trabalho.

Certo dia, tendo que ir à cidade, Emanuel perguntou à noiva se queria algo. Ela, então, pediu-lhe que fosse ao correio retirar uma carta que estaria endereçada a ela. Quando regressou, Antonio lhe entregou a carta, intacta, para que a lesse. Em seu íntimo, Elvira admirou a honestidade do noivo em não abrir a carta para conhecer seu conteúdo. Elvira entregou a carta ao noivo para que também a lesse e, de comum acordo, picaram-na e deixaram que o vento levasse seus pedaços embora. Emanuel repetia: "Ti voglio tanto bene!...". Assim, o vento levou embora também as esperanças do padeiro apaixonado por Elvira.

Numa tarde, a esposa do fazendeiro, senhora distintíssima, foi visitar a família de Elvira e viu um par de meias que ela começou a tricotar no navio. Percebendo que a senhora havia gostado muito do trabalho, a mãe de Elvira a pediu que, quando acabasse, deveria presenteá-la com as meias. Esta, em agradecimento, deu-lhe uma peça de fazenda. Elvira, radiante com o presente, contou ao noivo o que havia acontecido. Cheio de ciúme e irritado com a proximidade entre Elvira e a família do fazendeiro, no dia seguinte Emanuel foi até a casa grande para tirar satisfações. Como consequência, foi expulso da fazenda.

Emanuel encontrou trabalho em outra fazenda. Embora tivesse que enfrentar inúmeros perigos, todas as noites  entrava escondido na fazenda onde Elvira vivia e não descansou até que a família também se mudasse para o local onde ele trabalhava no momento.


CASAMENTO DE ELVIRA E EMANUEL

Finalmente o casal marcou a data de seu casamento, que seria realizado apenas no religioso, já que nessa época ainda não havia o registro civil. Para certificar-se da formação religiosa dos nubentes, o padre pediu que a cerimônia fosse adiada por alguns dias, pois percebera que a noiva tinha uma boa formação nesse sentido, porém, o noivo precisaria fazer um curso. Não houve acordo com Emanuel e o padre teve que celebrar o casamento de qualquer maneira. A união aconteceu na Catedral de São Carlos Bartolomeu, em 08/05/1888.

Parte 10


ROTINA DO CASAL E NASCIMENTO DOS FILHOS

Algum tempo depois do casamento, numa determinada madrugada, o casal acordou sobressaltado com fortes batidas na porta. Emanuel, apreensivo, levantou-se imediatamente e ao abrir a janela defrontou-se com dois negros fortes, capangas da antiga fazendo onde trabalhara e fora expulso. Os homens afirmaram que estavam ali para matá-lo por ter retirado a Família Meneghelli da fazenda. Disseram também, no entanto, que não cumpririam a ordem que receberam, pois tinham por ele grande consideração e gratidão pela amizade que sempre lhes dedicara. Advertiram-lhe, porém, de que jamais deveria abrir a porta sem antes certificar-se de quem batia, pois o patrão poderia mandar outros para matá-lo.

Os meses passaram sem grandes surpresas, quando, no ano seguinte, a alegria invadiu o coração de todos, com o nascimento do primogênito do casal, em 11/03/1889. O menino recebeu o nome de Antonio, em homenagem ao avô materno. Seus padrinhos foram o fazendeiro e sua senhora.


Em 27/02/1890 nasceu o segundo filho, que recebeu o nome de Polycarpo, em homenagem ao tio materno. Foram seus padrinhos a filha e o genro do fazendeiro. Uma curiosidade da época é que os enxovais utilizados pelas crianças no batizado eram apenas emprestados, já que deveriam ser utilizados em muitas outras cerimônias. Mas, em compensação, as madrinhas presenteavam cada afilhado com uma peça de fazenda.

Algum tempo passou e o casal resolveu sair da fazenda para ir morar na cidade. Foram para a Rua Marechal Deodoro, esquina com Rua José Bonifácio. Os pais de Elvira também mudaram-se para uma casa vizinha a dela.


Em 21/02/1892 o casal teve seu terceiro filho, Domingos, que recebeu esse nome em homenagem a seu tio paterno. Seus padrinhos foram o tio Polycarpo e Maria, uma jovem amiga de sua mãe.

Algum tempo passou e Emanuel resolveu abrir um armazém na Rua General Osório e para lá se mudaram. Em 28/05/1893 nasceu o quarto filho, chamado José, também em homenagem a um dos tios paternos. Seus padrinhos foram Antonio e Antonina, pais de Elvira.

O pequeno Domingos permanecia na casa dos avós. Numa manhã, bem cedo, Antonina chegou à casa de Elvira com o netinho no colo e chorando copiosamente. Contou que tarde da noite, suas vizinhas (mãe e filha), começaram a gritar e pedir socorro, pois dois ladrões estavam invadindo sua casa. Seu esposo Antonio e o filho Hermenegildo correram para ajudá-las. Nesse instante a polícia chegou e, sem que percebessem, os ladrões fugiram, enquanto as mulheres permaneciam trancadas na casa. Os policiais, julgando que eles fossem os assaltantes, os levaram para a cadeia, onde foram maltratados, espancados e permaneceram presos.

Emanuel e seu cunhado Polycarpo, que nessa época já estava casado, dirigiram-se à casa do representante do consulado italiano, que prontamente os acompanhou à delegacia. Lá chegando, não conseguiram convencer o delegado do equívoco e, assim, Antonio e Hermenegildo continuaram presos. Posteriormente, o delegado resolveu ouvi-los com mais atenção e os liberou, aconselhando-os a nunca mais saírem de casa para defender ninguém, pois essa era tarefa da polícia.

Passado algum tempo, Emanuel comprou um sítio no Can-Can, em Água Vermelha, para onde mudou-se com a esposa e filhos. Lá abriu um novo armazém. Nessa época, em 23/10/1894 nasceu o quinto filho do casal, Francisco, que recebeu esse nome em homenagem ao tio paterno. Os padrinhos foram um casal de amigos da família. Infelizmente o menino faleceu antes de completar dois anos de idade.

No sítio, Emanuel possuía uma mula adestrada. Quando era necessário mandar um recado para os sogros, Emanuel escrevia um bilhete e o colocava entre os arreios do animal, que se dirigia para a casa na cidade. Lá providenciava-se o que era necessário e colocava-se novamente na mula, que regressava diretamente para o sítio, com a missão cumprida.




MILAGRE DE SÃO JOSÉ

Numa determinada manhã, José, o quarto filho de Elvira e Emanuel, levantou-se da cama com os olhos fechados e, por mais que os pais tentassem ajudá-lo, não conseguiam abri-los. Levaram, então, o menino ao médico da clínica geral, Dr. Serafim V. Almeida, muito conceituado na cidade, que propôs um tratamento diário. Antonina, a avó do menino, incumbiu-se de levá-lo diariamente à clínica. Com isso, Dominguinhos, que ficava com os avós, voltou para o sítio.

Era mês de outubro e todas as manhãs, antes de ir ao médico com o neto, Antonina dirigia-se à igreja e ajoelhada aos pés de São José pedia para que seu netinho recuperasse a visão. Durante seis meses consecutivos ela perseverou no tratamento e na oração. Como por um milagre, exatamente em 19 de março, dia dedicado a São José, o pequenino José abriu os olhos e pôde novamente contemplar a luz do dia. Antonina, ajoelhada aos pés de São José, derramava lágrimas de alegria e reconhecimento. O médico, então, declarou sua cura completa.

Entusiasmada, Antonina queria imediatamente contar a novidade aos pais do menino. Como todos estavam trabalhando e não poderiam acompanhá-la, Antonina aventurou-se a viajar sozinha pela primeira vez. Porém, chegando a Monjolinho, o trem parou para abastecer-se de água. Antonina, julgando ter chegado ao seu destino, saltou do trem carregando o menino. Logo, porém, notou que se enganara.

Aflita, angustiada e perdida num lugar estranho, novamente passou a pedir auxílio aos céus. A resposta não tardou a chegar e, de repente, surgiu um amigo da família, Sr. Antonio Tonissi, que ao vê-la, apressou-se a perguntar o que houvera. Logo tratou de tranquilizá-la, carregando o menino nos braços para acompanhá-los até a casa da filha.

Percorreram um longa distância e, finalmente, toda a angústia de Antonina desapareceu ao ver a imensa alegria dos pais e irmãos de José por sua recuperação.

Parte 11


CHEGADA DOS IRMÃOS DE EMANUEL

Algum tempo se passou e Emanuel vendeu o sítio em que vivia com a família, incluindo o armazém. Com o dinheiro, comprou um pequeno terreno na parte alta da cidade (Rua Marechal Deodoro com Aquibadan) e, como tinha habilidade para qualquer tipo de trabalho, com a ajuda do sogro e dos cunhados construiu uma casa confortável e um novo armazém.

Ja havia algum tempo que seu irmão Domingos viera da Itália. Como era marceneiro, foi incumbido de fazer os móveis para a nova casa de Emanuel. Domingos casou-se com a jovem Josefina Miceli, por coincidência com o mesmo sobrenome de sua família. Daí surgiu a família Miceli Miceli.

Os pais de Josefina possuíam uma chapelaria na Av. São Carlos. Ela tinha dois irmãos, Bartolomeu e Fortunato, que se mudaram para Araraquara logo após o falecimento de seus pais. Nessa cidade continuou a descendência dos Miceli.

Domingos abriu um armazém na Av. São Carlos e com a esposa Josefina teve quatro filhos: Antonio, Rosa, Ítalo e Olga. Depois de algum tempo, Domingos e Josefina regressaram para a Itália e se corresponderam com minha família até suas mortes. Os quatro filhos não quiseram acompanhar os pais e mudaram-se para os Estados Unidos.

Além de Domingos, também vieram para o Brasil outros dois irmãos de Emanuel, Tomáz e Francisco, que logo voltaram para a Itália. Outro irmão, Rafael, chegou ao Brasil trazendo consigo dois filhos menores, Antonio e Francisco. Seu desejo era se estabelecer para depois buscar a esposa que havia permanecido na Itália. Infelizmente não pôde realizar seu objetivo, porque faleceu na época da febre amarela. Seus filhos, então, ficaram sob os cuidados dos tios e, mais tarde, mudaram-se para Araraquara, onde se casaram.


A PRIMEIRA FILHA DE ELVIRA E EMANUEL

Deus abençoou a nova casa de Elvira e Emanuel com o nascimento da primeira menina, tão esperada, em 24/01/1896. Ela recebeu o nome de Rosina, em homenagem à sua avó paterna. Seus padrinhos foram seu tio Domingos, irmão de Emanuel, e Josefina Pugliese, uma parente distante.

No dia de seu batizado, a família ofereceu uma grande festa e enfeitou a casa toda. Polycarpo, irmão de Elvira, trouxe a banda da qual era regente para animar a comemoração. Emanuel transbordava de alegria e distribuía doces para as crianças da rua. Pares valsavam alegremente, havia comida farta, com sanduíches, polenta e linguiça assada na grelha.

Eis que no melhor da festa surgem dois policiais perguntando pelo dono da casa. Esclareceram Emanuel de que estavam ali porque receberam uma reclamação da vizinha de sua casa, que queixava-se por estarem atirando pedras em seu telhado. Mas tranquilizaram a todos, dizendo que já estavam observando a movimentação há mais de uma hora e não notaram nenhuma irregularidade. Informaram que não iriam mais incomodá-los e, portanto, a festa familiar poderia continuar sem problemas. Agradecido pela gentileza dos policiais, Emanuel os convidou para comer alguma coisa e tomar umas cervejas.

Logo que os policiais se retiraram, porém, um grupo de rapazes, comandados por HERMENEGILDO, resolveu se vingar da calúnia lançada pela vizinha e atiraram pedras no telhado da coitada até o dia raiar!

Essa vizinha, Dona Maria, uma senhora portuguesa, tinha por hábito reclamar de seus vizinhos na delegacia. Certo dia, o delegado se cansou das queixas e a aconselhou a mudar-se para uma casa no meio do mato, já que ela não poderia ser vizinha de ninguém. E, assim, ela deixou de perturbar a tranquilidade da família de Emanuel.